O estresse e o mal de Parkinson

O estresse e o mal de ParkinsonUm novíssimo estudo aponta que a tensão emocional influencia no desenvolvimento dessa doença neurológica, que afeta os movimentos e causa tremores no corpo

POR CACILDA GUERRA
FOTO MÁRIO LEITE
INTERFERÊNCIA GRÁFICA MARCELO GARCIA

Um indivíduo extremamente preocupado, exigente demais consigo mesmo, que vive para o trabalho, passou por períodos de tensão prolongados ou sofreu fortes abalos emocionais: esse é o perfil mais comum do portador do mal de Parkinson, distúrbio neurológico crônico e progressivo, que prejudica os movimentos e causa tremores por todo o corpo. A descrição é feita pelo médico Cícero Galli Coimbra, professor de Neurologia Experimental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que desde 2003 coordena um estudo sobre a doença.

Em um primeiro momento, a pesquisa esteve focada em um pequeno grupo de pessoas que se tratava no Hospital do Servidor Público Municipal, na capital paulista, revelando que os pao estresse e o mal de Parkinson Um novíssimo estudo aponta que a tensão emocional influencia no desenvolvimento dessa doença neurológica, que afeta os movimentos e causa tremores no corpo cientes tinham uma deficiência de vitamina B2 no sangue e ingeriam carne vermelha em excesso. A associação desses dois fatores foi a base do tratamento, que consistiu na reposição da vitamina e na eliminação da carne e seus derivados da dieta. Após três meses, a recuperação média da função motora passou de 44% para 70%.

O estudo prosseguiu e conta hoje com cerca de 600 indivíduos. “A novidade em relação àqueles dados preliminares, a ser apresentada em junho em um congresso sobre o mal de Parkinson em Berlim, na Alemanha, é a descoberta de que o estresse emocional também é fator de risco para a doença, até mais importante que o consumo excessivo de carne vermelha”, conta o neurologista da Unifesp.

O tratamento, que agora inclui medidas de redução do estresse, como psicoterapia e incentivo para que os pacientes encarem a vida de maneira mais leve, tem dado bons resultados. Entre eles, o desaparecimento dos problemas urinários, dos pesadelos e das dificuldades de raciocínio que alguns indivíduos apresentam nos estágios finais da enfermidade. “De modo geral, os sintomas regridem até o que eram um ano antes de a pessoa começar a se tratar. Alguém que esteja doente há oito meses, por exemplo, passa a não apresentar mais nenhum sinal. Daí a importância do diagnóstico precoce”, alerta Cícero Galli Coimbra.

COMO RECONHECER
Segundo o neurologista João Carlos Papaterra Limongi, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e organizador do livro Conhecendo Melhor a Doença de Parkinson(ed. Summus), é difícil para o doente e a família identificarem a época exata em que surgiu o problema, já que este começa de maneira quase imperceptível. O primeiro sintoma pode ser um dos descritos a seguir:
 Cansaço ou mal-estar no fim do dia.
 Letra menor ou menos legível.
 Fala menos articulada.
 Depressão ou vontade de se isolar, sem motivo.
 Lapsos de memória.
 Dificuldade de concentração.
 Irritabilidade.
 Dores musculares, principalmente na região lombar.
 Menos movimento em uma dos braços ou em uma das pernas.
 Piscadas pouco freqüentes.
 Expressão facial rígida, ‘congelada’.
 Lentidão nos movimentos.
 Permanência na mesma posição por muito tempo.

Tremores, movimentos lentos e fala monótona
Quando se fala em Parkinson, muita gente associa a doença apenas a tremores nas mãos. Mas ela abrange um conjunto de alterações bem mais amplo, a começar pelos tremores propriamente ditos, que podem aparecer também nas pernas, pés, cabeça, queixo e lábios. Os movimentos, por sua vez, ficam mais lentos, o que leva a pessoa a realizar as atividades comuns do dia-a-dia com menos rapidez e destreza do que quando era saudável. Como os gestos perdem a amplitude, a caligrafia diminui de tamanho. A rigidez muscular é outra manifestação do distúrbio, afetando braços, pernas e pescoço. A marcha se caracteriza por passos mais curtos que o normal e pelo arrastar dos calcanhares no chão, enquanto o corpo se inclina para a frente – e esse desequilíbrio na postura provoca quedas freqüentes. Sinais que não estão relacionados com o sistema motor também costumam surgir, como depressão, insônia, pesadelos, tonturas, cãibras nos pés, problemas urinários e dificuldades respiratórias. Além disso, a voz tende a se tornar mais fraca, e a fala, monótona.

A evolução da doença é lenta e os especialistas a dividem em cinco fases. Na primeira, aparecem tremores, rigidez muscular ou ambos em apenas um lado do corpo. Na segunda, os dois lados passam a apresentar os mesmos sintomas. Quando surge a terceira, o doente adota uma postura permanentemente curvada, perde o equilíbrio ao dar passos para trás e, quando está caminhando, não consegue mudar de direção com rapidez. A rigidez muscular na quarta fase chega a tal ponto que o indivíduo precisa de ajuda para comer e cuidar da higiene pessoal. Por fim, na última etapa, ele não é mais capaz de levantar sozinho da cama ou da cadeira, a não ser que use uma bengala ou um outro apoio.

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O estresse e o mal de Parkinson
Um novíssimo estudo aponta que a tensão emocional influencia no desenvolvimento dessa doença neurológica, que afeta os movimentos e causa tremores no corpo

A doença surge como conseqüência de uma degeneração neurológica na área do cérebro conhecida como ‘substância negra’. Nessa região se concentram neurônios (células nervosas) que produzem dopamina, matéria química que, entre outras funções, tem papel fundamental na manutenção das atividades motoras. No mal de Parkinson, por razões ainda desconhecidas, essas células param de funcionar ou são destruídas e morrem, levando a uma deficiência de dopamina no organismo. Homens e mulheres são afetados em igual proporção pelo distúrbio, que, segundo as estimativas, aflige cerca de 200 indivíduos em cada grupo de 100 mil. Ele aparece em geral a partir dos 60 anos e tem uma incidência maior na faixa entre 70 e 75. Porém também pode atacar, embora mais raramente, pessoas com menos de 45 anos.

ÁREA DO CONFLITO

Em um corte da parte média do cérebro é possível visualizar a substância negra, região em que se concentram os neurônios produtores de dopamina, fundamental para as atividades motoras.

Medicamentos e atividade física ajudam
Apesar de todo o progresso científico ocorrido desde que a enfermidade começou a ser estudada, a medicina ainda não conseguiu descobrir a cura. Felizmente, a qualidade de vida dos parkinsonianos hoje é bem melhor do que três décadas e meia atrás, quando não se conhecia nenhum tratamento e, nos estágios mais avançados, a doença se tornava totalmente incapacitante, confinando a pessoa a uma cama.

Em 1970, os neurologistas passaram a cuidar de seus pacientes com a levodopa, medicação que, ao se transformar em dopamina no organismo, repõe a quantidade que o cérebro não é mais capaz de produzir, suavizando drasticamente os sintomas. De lá para cá, outros remédios antiparkinsonianos vêm sendo desenvolvidos, para uso conjunto com a levodopa ou isoladamente.

Além dos medicamentos, os especialistas recomendam que se pratique atividades físicas diariamente, como caminhadas ou natação, e se faça sessões de fisioterapia, para fortalecer a musculatura e manter a flexibilidade das articulações. A terapia ocupacional também se mostra benéfica nos casos em que a depressão faz parte do quadro.

A alimentação deve ser rica em fibras, para evitar a prisão de ventre, causada tanto pelas drogas administradas como pelo enfraquecimento dos movimentos do intestino, que acompanha o processo degenerativo da enfermidade. Devido à possibilidade de quedas e conseqüentes fraturas, é fundamental ainda prevenir a osteoporose – com o consumo de produtos ricos em cálcio – e a obesidade.

Cientistas buscam deter o avanço
Como os remédios atualmente disponíveis combatem apenas os sintomas do mal, sem impedir que os neurônios produtores de dopamina continuem se deteriorando, inúmeras pesquisas vêm sendo feitas, em busca das possíveis causas da doença e de formas de tratamento mais eficazes. Recentemente, cientistas americanos divulgaram resultados de testes indicando que um antibiótico usado em casos de lepra e tuberculose pode bloquear reações químicas associadas à morte de neurônios – descoberta que, se confirmada em animais e, posteriormente, em seres humanos, abrirá caminhos para deter o avanço do distúrbio.

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O estresse e o mal de Parkinson
Um novíssimo estudo aponta que a tensão emocional influencia no desenvolvimento dessa doença neurológica, que afeta os movimentos e causa tremores no corpo

Em outro experimento, realizado no Japão, os pesquisadores transplantaram células-tronco de embriões de macacos para o cérebro de macacos que tinham uma doença semelhante ao Parkinson, revertendo os sintomas – um resultado animador para o tratamento de pessoas no futuro, mas também polêmico, uma vez que enfrenta a oposição daqueles que consideram antiético o uso de embriões humanos. Já estudos recentes nos Estados Unidos, envolvendo a comparação do DNA de famílias e indivíduos, mostraram que um gene defeituoso era a causa de 5% dos casos de mal de Parkinson hereditários e de 1,6% dos casos chamados ‘esporádicos’ (que não têm causa hereditária). Tal alteração, identificada futuramente em testes genéticos, poderá favorecer o diagnóstico precoce, isto é, antes que a doença se manifeste. E o tratamento será, então, iniciado rapidamente, permitindo melhor qualidade de vida ao portador.

PARKINSONIANOS FAMOSOS
Michael J. Fox
Lembrado sobretudo por sua participação na trilogia De Volta para o Futuro, o ator abandonou a carreira aos 39 anos, depois de revelar que estava com Parkinson. Criou a Michael J. Fox Foundation, organização que, desde 2000, já arrecadou mais de 40 milhões de dólares para pesquisas sobre a cura da doença. No ano passado, apoiou publicamente o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, John Kerry, por sua postura progressista em relação às pesquisas com células-tronco.

Papa João Paulo II
Apresentou em 1994 os primeiros sinais da doença, amenizados durante anos graças ao uso de remédios. De lá para cá, sua fragilidade física se acentuou de maneira drástica, em parte devido aos problemas decorrentes da velhice – o Papa tem hoje 84 anos. Nas últimas semanas seu estado de saúde se agravou e ele foi submetido a uma traqueostomia (intervenção cirúrgica para facilitar a respiração). Segundo especialistas, essa dificuldade para respirar também pode ser conseqüência do mal de Parkinson.

Fotos: DivulgaçãoMuhammad Ali
Um dos maiores boxeadores de todos os tempos, Ali iniciou a carreira aos 22 anos, época em que se converteu ao islamismo e abandonou o nome de batismo, Cassius Clay. Quando parou de lutar, em 1981, tinha acumulado 56 vitórias, contra apenas 5 derrotas. Descobriu que sofria do mal de Parkinson em 1984, e a notícia deu origem a rumores de que a doença fora causada pelos inúmeros e perigosos golpes recebidos na cabeça em treinos e lutas, o que nunca ficou comprovado.

Quem foi Parkinson?
Londres, 1817. O médico James Parkinson publica um livreto em que descreve os casos de seis pacientes homens, com idades entre 50 e 72 anos, todos com tremor involuntário, alterações no caminhar e tronco curvado para a frente – sinais da enfermidade à qual ele dá o nome de ‘paralisia agitante’. Só em 1875, porém, ela se tornaria mais conhecida no meio científico, graças aos estudos do famoso neurologista francês Jean Martin Charcot, que, em uma homenagem àquele que pela primeira vez a relatou, batizou-a como ‘mal de Parkinson’.

Produção: Patida Mauad. Assistente de produção: Odete Marietto. Maquiagem: Kaio Martinelli

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Disponivel em

http://revistavivasaude.uol.com.br/Edicoes/11/artigo5894-1.asp

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Uma resposta

  1. Bom artigo.

    Gostaria de receber novas notícias, estudos, descobretas sobre o mal de parkinson.

    Obrigada!

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