Plantas medicinais na dose certa

Plantas medicinais na dose certa
Com menos contraindicações e reações do que os remédios sintéticos, os medicamentos fitoterápicos industrializados ganham simpatia de médicos e pacientes. O consumo, porém, de chás caseiros, feitos a partir de plantas in natura ou secas, não é seguro
Publicado em 04/02/2009
Kamila Mendes Martins

A fitoterapia, utilizada desde a Antiguidade pelos gregos, deixou de ser uma “receitinha” de chás indicada pelas avós para se transformar em medicamentos industrializados, com legislação específica e fiscalização dos governos no mundo todo. Em busca de uma melhor qualidade de vida e de produtos que agridam menos o organismo, estima-se que 80% da população no mundo faz uso de medicamentos derivados de plantas medicinais (fitoterápicos). No Brasil, 91,9% da população já tomou algum remédio com essa forma de princípio ativo, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Setor Fitoterápico, Suplemento Alimentar (Abifisa).

Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) prevê que, em 2010, os fitoterápicos representem 15% do mercado farmacêutico brasileiro. Há dois anos, era somente 2,5%. Se a previsão se confirmar, será um aumento de seis vezes na participação dos medicamentos à base de plantas.
Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Antes de optar pelos medicamentos fitoterápicos, conheça as vantagens e os cuidados que devem ser tomados:

> Em termos de reações adversas, interações medicamentosas e efeitos colaterais, os fitoterápicos têm tudo em menor grau e intensidade se comparados com os remédios sintéticos. Mas lembre-se, todos têm contraindicações.
> Teoricamente, o preço do fitoterápico deveria ser menor na maioria dos casos. Razões: porque a pesquisa é mais barata do que a desenvolvida para os remédios sintéticos e a matéria-prima brasileira (as plantas) é uma das maiores do mundo.
> Para fazer o uso correto desses medicamentos, o paciente deve primeiro consultar um médico para que ele faça uma avaliação e prescreva o medicamento na dose correta.
Fonte: Silvio Franchi, Larissa Rocha, Ricardo Tabach e Helvo Slomp Junior

O perigo das ervas milagrosas
Brasileiro tem sempre uma receita caseira para qualquer dorzinha que aparece pelo corpo. Na dúvida, dizem, tome um chazinho porque, se bem não fizer, mal não fará. Esse senso comum traz com ele uma série de riscos à saúde para quem faz infusões com as plantinhas do quintal de casa ou, ainda, se arrisca a comprar ervas em mercados, feiras livres e ervanários.

De olho nessa porcentagem e contando com uma das maiores biodiversidades no mundo, a indústria farmacêutica brasileira começou a valorizar os medicamentos fitoterápicos e passou a fazer altos investimentos em pesquisas e desenvolvimento de novos remédios e suplementos alimentares. Hoje é possível encontrar 600 produtos certificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para as mais diversas doenças, desde problemas de funcionamento do aparelho gastrointestinal a anti-inflamatórios. “De uns 10, 15 anos para cá, a indústria farmacêutica nacional passou a ver com bons olhos os medicamentos à base de plantas”, explica Ricardo Tabach, doutor em psicobiologia na área de plantas medicinais e pesquisador do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).


Credibilidade
Prova da confiabilidade desses medicamentos é que o Sistema Único de Saúde (SUS), desde 2007, fornece medicamentos à base de espinheira santa, para tratamento de gastrite e úlcera; e guaco, para tosse e gripe. Ainda este mês, o Ministério da Saúde vai concluir e divulgar uma lista de plantas medicinais que são objeto de interesse do SUS. A relação será utilizada pelos ministérios para focar as ações específicas de cada área para a produção, desenvolvimento e pesquisa dessas plantas.

Controle
Um dos fatores que mais contribuíram para que a fitoterapia passasse a ser respeitada e prescrita pelos médicos brasileiros foi a melhoria na legislação brasileira sobre o tema e o rigoroso controle da Anvisa sobre esses medicamentos. “Até por termos uma das maiores biodiversidades do mundo, senão a maior, houve um aumento no rigor da legislação feita pela Anvisa no sentido de procedência e controle de qualidade. Para um medicamento ser lançado, todas as exigências e estudos pedidos para um remédio sintético são cobrados também para um fitoterápico”, conta o biólogo Ricardo Tabach, da Unifesp.
Esse maior rigor da legislação fez com que a confiança dos médicos nessa forma de medicação aumentasse. “Ela (a fitoterapia) está bem aceita no meio médico e científico porque dispõe de muita tecnologia, e a legislação brasileira é uma das mais avançadas do mundo nessa área. Há países que não têm um controle tão grande da qualidade, da eficácia e da segurança quanto nós”, afirma o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e médico homeopata, Helvo Slomp Junior, que trabalha com fitoterapia há nove anos e também atua em programas do Ministério da Saúde.
Mas, segundo o médico, ainda há falta de conhecimento de muitos médicos sobre as propriedades dos remédios fitoterápicos. “As universidades não inseriram nos seus currículos a disciplinas dessa área. Isso é uma carência que precisamos resolver. Muitos médicos não prescrevem porque não conhecem os produtos, por não terem tido essa formação na sua graduação em Medicina.”
A escolha
Optar por um medicamento fitoterápico no lugar de um sintético significa priorizar elementos naturais que têm menos contraindicações e efeitos colaterais do que os produzidos artificialmente em laboratórios. “Em termos de reações adversas, interação medicamentosa e efeitos colaterais, eles têm tudo em menor grau e intensidade. Mas tudo isso existe, inclusive contraindicações, porém sempre em menor grau do que o sintético, e é essa a grande vantagem”, explica a farmacêutica do laboratório botânico Herbarium Larissa Balani Rocha.
Isso ocorre porque o medicamento sintético tem uma alta concentração de uma mesma substância química que, ao entrar em contato com o sangue, faz com que ele reaja de forma contrária causando os efeitos colaterais. “Realmente observa-se na prática, e em estudos clínicos, que na dose correta, há menos efeitos colaterais dos fitoterápicos do que dos medicamentos sintéticos”, diz o médico da UFPR Helvo Slomp Júnior, que faz uma ressalva: “Fitoterapia ainda não é indicada para todas as doenças. Ninguém vai tratar câncer com fitoterapia.”

Alopatia x homeopatia
É muito comum que a fitoterapia seja confundida com a homeopatia, mas elas são completamente diferentes. Os remédios fitoterápicos são uma forma de alopatia, que trata a doença com reações contrárias ao mecanismo de atuação do problema/sintoma. “Temos dentro da alopatia os fitoterápicos, cujos princípios ativos são extraídos das plantas; e temos os sintéticos, que são os produzidos em laboratórios”, diz a farmacêutica Larissa.
Já a homeopatia vai despertar no organismo a mesma ação da doença para fazer com que o corpo do paciente reaja ao problema criando defesas próprias. “Se a pessoa tem um processo inflamatório, a homeopatia vai proporcionar uma reação semelhante e daí acredita-se que o organismo vai agir de forma contrária para acabar com o problema”, explica Larissa.

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