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Dieta livre de carne e rica em vitamina B2 pode regredir Parkinson

Dieta livre de carne e rica em vitamina B2 pode regredir Parkinson
Jornal da Paulista
Comunicação
Ano 16 – N° 179
Maio de 2003

Disponível em
http://www.unifesp.br/comunicacao/jpta/ed179/pesquisa4.htm
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Dieta livre de carne e rica em vitamina B2 pode regredir Parkinson
  

Estudo revela que portadores da doença apresentam deficiência da vitamina e ingerem muita carne vermelha; nova dieta fez com que a recuperação média motora dos pacientes saltasse de 44% para 70% em apenas três meses de tratamento


Ana Cristina Cocolo

A bengala fica no armįrio
Com trźs meses de tratamento, a pintora Delphina Madalena Santos, que sofre do mal de Parkinson hį dez anos, deixou de apresentar as alteraēões de equilķbrio responsįveis por vįrias de suas quedas em casa. A bengala que a acompanhava jį estį bem guardada no armįrio
Incluir vitamina B2 e tirar carne vermelha. Essas duas pequenas alterações na dieta de portadores da doença de Parkinson estão trazendo grandes benefícios para um grupo de 31 pessoas que participa de um estudo realizado por Cícero Galli Coimbra, neurologista e professor livre-docente de Neurologia Experimental da Unifesp. Os pacientes, a maioria em tratamento no Hospital do Servidor Público Municipal, estão verificando não apenas a estagnação da doença como também sua regressão. Os dados preliminares da pesquisa foram apresentados no 6º Congresso Internacional sobre doença de Alzheimer e Parkinson, realizado em Sevilha, Espanha, no começo de maio.

Com apenas três meses de tratamento e dieta, a recuperação média da função motora dos pacientes passou de 44% para 70%. “Os melhores resultados são encontrados nos pacientes que estão nas fases iniciais da doença”, explica Coimbra. “Entretanto, existem casos de pessoas que se tratam há muito tempo e que tiveram uma melhora na função motora de 15% para 90% após a intervenção.” Um dos casos descritos por Coimbra é o da professora Cirlei Favaro, de 66 anos. Portadora de Parkinson há quase dez anos, ela precisava de auxílio para se levantar e reclamava da falta de equilíbrio mesmo com a ingestão dos remédios. Seus sintomas antes de iniciar o tratamento, em setembro de 2002, eram característicos da fase 4 do problema (leia box).
A bengala fica no armário

Sete meses depois da administração da vitamina e de ter eliminado a carne vermelha (de vaca e de porco) e derivados (frios e miúdos) do cardápio, Cirlei comemora: os sintomas regrediram, permitindo que ela voltasse a dirigir e a andar a pé nas ruas sem medo de cair. Hoje, suas características se assemelham às de pacientes que estão na fase 1 da doença. “Agora, tenho aversão ao alimento que mais consumi na vida: a carne vermelha.”

O alívio também foi grande para a dona-de-casa Nirce Alves dos Santos, 66, que teve a confirmação do diagnóstico há apenas dois anos. Antes de iniciar a reposição da vitamina B2, há seis meses, consumia carne vermelha pelo menos quatro vezes por semana e seus sintomas a colocavam na fase 2 da doença. Atualmente, ela está livre não só desses sintomas como também da medicação indicada a portadores de Parkinson. “Minha única preocupação agora é tomar a vitamina na hora certa.”
Gordura animal e carne X Sistema motor

Conheça os limites impostos por cada fase da doença A doença de Parkinson é uma alteração do sistema nervoso central que afeta principalmente o sistema motor, provocando tremores, rigidez muscular e alterações posturais.
Outras manifestações não-motoras também podem ocorrer como o comprometimento de memória, a depressão e alterações do sono.
O neurologista João Carlos Papaterra Limongi, do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, explica que apenas 5% dos portadores da doença apresentam forte componente hereditário.
Outros 75% dos casos ainda desafiam a ciência a descobrir a causa. A porcentagem restante, segundo ele, é classificada por parkinsonismo secundário, no qual é possível identificar uma causa medicamentosa, tóxica, infecciosa ou traumática para o desenvolvimento da doença.
Conheça as fases do Parkinson e as limitações impostas em cada uma delas.
Fase 1 – O indivíduo tem apenas um lado do corpo afetado por tremores, rigidez ou ambos os sintomas
Fase 2 – Os mesmos sintomas afetam os dois lados do corpo
Fase 3 – Além dos sintomas da fase 2,
o indivíduo tem o equilíbrio afetado. Geralmente adquire uma postura encurvada e tem extrema dificuldade para mudar de direção rapidamente ou dar passos para trás sem perder o equilíbrio

Fase 4 – A rigidez já o impede de fazer
a higiene pessoal, precisando de auxílio até mesmo para se alimentar

Fase 5 – Ele não consegue se levantar da cama ou da cadeira sem ajuda. Consegue andar mas, muitas vezes, com o apoio de alguém ou de
uma bengala

As informações presentes até hoje na literatura médica apontam o consumo de gordura animal como um dos fatores de risco para a doença. Mas na opinião de Cláudio Fernandes Corrêa, neurocirurgião e chefe do Centro de Tratamento dos Movimentos Involuntários do Hospital 9 de Julho (Cetrami), essa informação é questionável, já que nenhum estudo conseguiu comprovar o malefício do consumo de gordura animal (e sua participação no desenvolvimento do Parkinson). O que existem são trabalhos que indicam que a ingestão de carne está ligada diretamente à produção de neurotoxinas.
Foi justamente esse o caminho que Coimbra seguiu em seus estudos. Associou a informação já conhecida sobre os efeitos nocivos da carne vermelha à falta de vitamina B2, causada pela má absorção do organismo, fatores que, em sua opinião, podem estar associados ao desenvolvimento da doença.
O neurologista afirma que, no início, a idéia da pesquisa era verificar se pacientes com Alzheimer e Parkinson apresentavam, além do aumento característico da homocisteína – substância tóxica apontada como participante do processo neurodegenerativo –, o mesmo grau de deficiência de determinadas vitaminas. “Queríamos saber se haveria um padrão de deficiência vitamínica próprio de cada doença.”
Para dosar essas substâncias, Coimbra coletou amostras de sangue de dez pacientes com Alzheimer e de outros 31 com Parkinson. Com a colaboração da bioquímica Virgínia Berlanga Junqueira, chefe do laboratório do Centro de Estudos do Envelhecimento da disciplina de Geriatria da Unifesp, ele verificou que as diferenças encontradas entre os dois grupos, relativas aos níveis de vitaminas B6, B12 e ácido fólico, não foram estatisticamente significantes. Porém, quando foram analisados os da vitamina B2, os portadores de Alzheimer, em geral, apresentaram concentrações normais, enquanto todos os portadores de Parkinson apresentaram níveis considerados abaixo da normalidade.
A partir daí, o neurologista passou a analisar se a dieta dos pacientes não incluía a quantidade suficiente dessa vitamina, encontrada principalmente no leite. “Para minha surpresa, a ingestão era boa. Mas percebemos que o consumo de carne vermelha entre esses pacientes era alto.”
De acordo com Coimbra, já é do conhecimento médico que a carne vermelha produz uma substância chamada hemina, extremamente tóxica para as células do organismo, originando a produção de radicais livres. “Para serem eliminados, esses radicais livres precisam de uma substância chamada glutationa que, após utilizada, só pode ser recuperada com vitamina B2”, diz Coimbra. “A falta da glutationa é a primeira alteração neuroquímica presente nas células cerebrais que estão degenerando com a doença de Parkinson.”
Com a reposição da vitamina, o pesquisador esperava que a doença parasse de progredir. Mas o resultado foi melhor: ela está regredindo. O neurologista ainda não sabe explicar se esse fenômeno se deve à neurogênese (processo que leva à formação do sistema nervoso) ou à recuperação de células que não funcionavam mas encontravam-se ainda vivas na substância negra do encéfalo, principal região afetada pelo processo neurodegenerativo.
“De qualquer forma, o nível de recuperação alcançado em tão pouco tempo é surpreendente, pois estima-se que cerca de 60% das células dessa região já foram perdidas quando surgem os primeiros sintomas.”
Coimbra acredita que a falta de vitamina B2 no organismo desses pacientes pode ser decorrente de um problema que atinge 15% da população: o mau funcionamento de uma enzima chamada flavoquinase, responsável pela absorção da vitamina.
Tabela
Arte Andrea Melo

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